quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

As Viagens de Bran Mac Febal

Um dia, quando passeava sozinho junto de sua fortaleza, Bran, rei da Irlanda, ouviu uma música atrás de si. Por mais que olhasse para trás, era ainda atrás dele que a música estava. Por fim, a suavidade da melodia era tanta que Bran acabou por cair num sono profundo. Quando acordou, viu junto de si um ramo de prata coberto de flores tão brancas que era impossível distinguir as flores do ramo. Bran levou o galho para o palácio real onde uma mulher vestida com estranhas roupas apareceu sem que ninguém soubesse dizer de onde. Ali recitou perante toda a corte uma longa canção de 50 estrofes. Ao cantar a doce música, afirmou ser ela a portadora do ramo de prata, feito de uma macieira da ilha de Emain. Nesta ilha bela e distante, na qual cintilavam os cavalos-marinhos de Manannán Mac Lir, a população entregava-se a jogos em meio a muita música e muita alegria. Ali não se conhecia a dor, o sofrimento, a maldade, a doença e nem mesmo a morte. Em contrapartida, tudo nela era belo e perene: a sua música era a mais melodiosa, os seus alimentos eram os mais apetitosos, a sua bebida, a mais saborosa, os seus tesouros eram os mais ricos. Por isso, Emain era única e incomparável. Uma joia no meio do mar.


Ao terminar a sua canção, a mulher tomou o ramo de prata das mãos de Bran e desapareceu sem que ninguém soubesse para onde tinha ido. Mas a canção fez efeito em Bran, levando-o a lançar-se ao mar acompanhado de três companhias de nove dos mais bravos guerreiros que dispunha, de modo a procurar a ilha encantada. Após dois dias e duas noites navegando no oceano, Bran viu um homem imponente se aproximar dentro de uma carruagem sobre as ondas. Este cantou-lhe também uma canção sobre as terras encantadas do Outro Mundo e identificou-se como Manannán, filho de Lir. Disse ainda a Bran que era seu destino regressar à Irlanda depois de muitos anos, onde geraria um filho a quem daria o nome de Mongán e que este seria um grande guerreiro. O Senhor dos Mares despediu-se, por fim, com outra canção.

Algum tempo depois de se afastar de Manannán, Bran avistou outra ilha. Aproximou-se dela rodeando-a com o seu barco, e verificou, com espanto, que todos os seus habitantes riam com agrado enquanto o observavam, sem que, contudo, lhe dirigissem a palavra. Bran enviou um dos seus homens à ilha, mas este, uma vez em terra, adquiriu igualmente o mesmo comportamento estranho dos seus habitantes: ficou a olhar fixamente para os seus companheiros, rindo, sem pronunciar palavra. Como tal, Bran lá o deixou, na ilha conhecida como Ilha da Alegria, e voltou a partir.


Passado um tempo, aproximou-se de outra ilha. Desta vez, era a Ilha das Mulheres. No porto, a sua líder deu-lhe as boas vindas e convidou-os a ir a terra. Mas, temendo aventurar-se na ilha desconhecida, Bran recusou o convite. A mulher recorreu então a um estratagema: atirou uma bola de fio em direção ao rosto de Bran, que a agarrou com as duas mãos. Ao fazer isso, a bola ficou colada e Bran se viu imobilizado. Puxando pela outra ponta, a mulher fez o barco atravessar o porto, obrigando assim Bran e os seus homens a adentrarem a ilha. Foram recebidos com camas quentes e boa comida, que nunca desaparecia dos pratos. Sem se aperceberem do passar do tempo, permaneceram na Ilha das Mulheres durante longas centenas de anos, até que Nechtan Mac Collbrain começou a sentir saudades de casa, sentimento que logo se espalhou entre os outros homens, que tentaram convencer Bran a voltar à Irlanda. A mulher avisou-os, porém, de que caso eles partissem da ilha iriam se arrepender, mas ainda assim decidiram partir. Ela disse-lhes então que deveriam levar com eles o companheiro deixado na Ilha da Alegria e, conhecendo o número de anos que haviam permanecido em seus domínios, advertiu-os para não tocarem o solo irlandês.

Bran e os seus homens abandonaram a Ilha das Mulheres e viajaram por mar até chegarem à costa da Irlanda. Alí encontraram uma multidão reunida em Srub Brain. Quando lhe perguntaram quem era, Bran respondeu: 

- Sou Bran, filho de Febal.

- Não sabemos quem és, embora a "Viagem de Bran" seja uma das nossas histórias mais antigas – respondeu um dos irlandeses, para grande espanto de Bran e dos seus homens.

Nesse momento, Nechtan decidiu sair do barco, esquecendo-se dos avisos que lhe haviam sido feitos na Ilha das Mulheres, e tocou o solo da Irlanda com os pés. Transformou-se rapidamente num monte de cinzas como se todos os seus anos lhe tivessem votado de uma só vez.

De dentro do seu barco, Bran contou aos irlandeses as suas aventuras, desde o início até àquele momento. Gravou-as em galhos utilizando o Ogham e deitou-os ao mar. Partiu depois no seu barco com os seus companheiros para nunca mais ser visto, e pelo mar vagueia ainda,  dizem, sem que ninguém saiba onde se encontra.

Fonte: Templo de Ávalon

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