segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Árvores Sagradas

"Coma terra, cave fundo, beba água!" 
- Tom Bombadil, em O Senhor dos Anéis.

Árvore é vida!

Todas as culturas possuem árvores importantes, sagradas, e acredito que isto diga muito sobre nossa ancestral e íntima relação com a Mãe Terra, nos primórdios de nossa existência, hoje cada vez mais esquecida no frenesi pós-moderno. Como estamos nos aproximando da primavera, pensei em escrever um pouco sobre algumas árvores importantes e relembrar suas histórias. Pois as árvores são seres ancestrais capazes de nos contar muitas histórias. Algumas ultrapassam dois mil anos de vida - e ainda estão jovens, dizem! Pegue um galho firme do chão e me acompanhe, caro leitor. Mas cuidado! Nada de machados ou aparatos cortantes à mostra! 


A Árvore da Vida

Dentro da tradição judaico-cristã, a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal é provavelmente a árvore mais afamada. Disposta no centro do Jardim do Éden, seus frutos foram terminantemente proibidos a Adão e Eva no célebre episódio do pecado original. É nessa árvore que a Serpente se enrosca. Mas não existe só ela. No mesmo lugar, no centro do Jardim, cresce outra cuja importância é muito maior: a Árvore da Vida, uma imagem que aparece em várias culturas (grega, egípcia, hebraica, mesopotâmica) simbolizando a vida eterna, a felicidade eterna e, em tradições mais místicas, a unidade e o retorno ao Absoluto. Adão e Eva (e seus descendentes) foram expulsos do Jardim, não podendo mais provar do fruto da Árvore da Vida e, portanto, impossibilitados de voltarem a ser Um com o Uno. Ao comerem do pomo oferecido pela Serpente, os dois se reconheceram como indivíduos, decaíram à condição de mortais e se apartaram do Todo. Jesus, ao vir à Terra muito tempo depois, seria retratado nas escrituras como o fruto dessa Árvore ou mesmo a própria Árvore, capaz de salvar o que estava perdido, ou seja, restituir aos homens a Graça do encontro com o divino. É por isso que Cristo às vezes aparece em pinturas medievais crucificado em uma árvore. Não se trata de qualquer árvore, como podemos ver abaixo.


"Arbre de vie et mort" - Berthold Furtmeyr, 1481 
Esta imagem, conhecida como "Arbre de Vie et Mort", de um manuscrito alemão datado de 1481 e de autoria de Berthold Furtmeyr, trás as duas árvores fundidas em uma só. Além disso, nos mostra a oposição tradicional e bem marcada entre Eva e a Virgem Maria. Sobre a primeira, temos uma caveira, indicando a morte e o pecado decorrentes de seu ato ao dar ouvidos à Serpente (que, enroscada no tronco, entrega-lhe o fruto). Sobre Maria, temos o fruto da vida, Cristo Crucificado, que com seu sacrifício restitui a Graça à humanidade e neutraliza as consequências provocadas por Eva. 

A Bíblia, por refletir uma cultura agrária e pastoril, está cheia de imagens arbóreas. Em João 15:5, Jesus diz a seus apóstolos, evocando a simbologia mencionada acima:

“Eu sou a videira, vós os ramos. Aquele que permanece em mim, e Eu nele, dará muito fruto; pois sem mim não podeis realizar obra alguma”.

Em uma passagem do Velho Testamento, mais especificamente em Êxodo 3:5, encontramos a Sarça Ardente, árvore misteriosa através da qual YHWH se revela a Moisés no Monte Horeb. Segundo o texto sagrado, a Sarça estaria totalmente em chamas sem, contudo, consumir-se. O solo em que ela nascia tornou-se imediatamente santo e Moisés foi obrigado a tirar as sandálias em respeito. Do interior das chamas muito vivas e brilhantes (tão brilhantes que Moisés não podia sequer olhar para elas) surgiu uma voz, que disse: "Eu sou Aquele que Sou.”

A Sarça Ardente, na verdade, é uma acácia-brava (Boswellia sacra), uma planta espinhosa e muito resistente, comum em regiões desérticas e de clima árido. De acordo com a Wikipedia, é dita "ardente" quando parasitada pela planta Loranthus acaciae, cujos frutos e inflorescências são vermelhos e dão, de longe, a impressão de que a acacia está em chamas. Quanto a sua simbologia, é interessante pensar no motivo pleo qual YHWH se manifestou em forma de sarça. 


A Sarça Ardente

Segundo o blog Vale do Mago, a sarça já era uma árvore venerada por vários povos antigos do Oriente Médio. Os hebreus e egípcios, dentre outros, utilizavam sua madeira no preparo de utensílios rituais e mesas para altares. Conta-se que a Arca da Aliança teria sido feita com a madeira da acácia. Os sarcófagos egípcios eram também usualmente fabricados com essa madeira, justamente por sua característica de não apodrecer, o que conotava longevidade e imortalidade. Ora, YHWH simplesmente usou as características da própria árvore, bem conhecida pelos povos da região, para representar sua imagem e seu caráter. Segundo o mitólogo Robert Graves, o segredo está no primeiro mandamento de YHWH a Moisés: "Sou o Senhor teu Deus e não terás outros deuses além de Mim". Em outra passagem, acrescenta: "Pois sou um deus ciumento".

A acácia-brava é uma espécie autossuficiente, não necessita de muita água e sufoca qualquer árvore que cresça ao seu redor. É, além disso, uma planta venenosa. Suas flores tem o poder de cegar e as sementes, de levar à morte. A única parte da planta usada como antídoto é a raiz. Com isso em mente, temos uma árvore temida por seus espinhos, flores e frutos (o Deus que deve ser temido), solitária e que não admite concorrência (não adorarás outros deuses além de mim) e autossuficiente (sou o que sou e tudo posso). 

As chamas, por outro lado, estariam ligadas ao Sol, a divindade mais importante de muitos povos, doador de vida e guardião do tempo, o responsável por fazer as plantações florescerem e regular as estações. É um símbolo certo da vitória (na briga entre trevas e luz, como aquela exemplificada no mito egípcio da batalha entre Hórus e Seth, a luz sempre acaba vencendo). Sempre fora cultuado como um arquétipo masculino universal de grande poder. 
     

Outros Povos


Bem, deixemos as tradições monoteístas um pouco de lado, agora, e sigamos em frente em nosso passeio. Segundo se conta, Buda atingiu a iluminação após meditar profundamente sob a Árvore Bodhi, uma figueira. 

No Japão, o florir da cerejeira é uma verdadeira festa! Muitos festivais são organizados nessa época para se reverenciar a sakura, como é chamada a flor de cerejeira em japonês. Um costume que se espalhou mundo afora com a imigração japonesa. Como é comum, há muitas lendas associadas a essa árvore. Sempre ouvi de minha mãe e avós que, quando a cerejeira floresce, deve-se passar por debaixo de seus ramos para tardar o envelhecimento e preservar a juventude. 



Sakura - cerejeira

Os Gregos



Os povos pagãos indo-europeus em geral reverenciavam não uma, mas várias árvores, muitas delas consagradas a um ou mais deuses. No caso do povo greco-romano, temos o loureiro, associado a Apolo; a romanzeira, árvore do jardim de Perséfone e também muito apreciada por Afrodite; o pinheiro, árvore consagrada à frígia Cibele; a videira, árvore dádiva de Dioniso. Homero nos conta que o leito nupcial de Odisseu e Penélope, em Ítaca, fora esculpido no tronco de uma enorme oliveira, com suas raízes ainda no solo. Aliás, a oliveira tem grande importância na cultura grega (e mediterrânea em geral).

Atena e Posseidon, quando da fundação da cidade de Atenas, disputaram para ver quem seria seu patrono. Como ambos a reivindicavam, os deuses do Olimpo decidiram que a cidade seria daquele que oferecesse o presente mais valioso. O deus dos oceanos prontamente bateu seu tridente no chão e dele fez brotar um magnífico cavalo (ou, como consta em algumas versões, uma fonte de água fresca). Atena, por seu turno, fez crescer uma bela oliveira. Os deuses consideraram a árvore de verdes ramos mais útil do que o cavalo. Afinal, dela poderia ser extraído o azeite usado para iluminar as noites escuras, para aliviar e curar feridas e também como alimento. Assim, a deusa saiu-se vitoriosa, tornando-se a protetora da cidade de Atenas. 

Dizem as más línguas que Posseidon não gostou muito do resultado. Irado, fez com que Atenas fosse tomada por uma grande enchente. Outra versão diz que amaldiçoou a cidade a nunca ter água o suficiente para abastecer a população. 

Eu não poderia, é claro, deixar de mencionar as hamadríades (Ἁμαδρυάδες, Hamadryádes, em grego). Conhecidas também simplesmente como dríades, elas eram as ninfas dos bosques. Essas ninfas viviam dentro das árvores ou associadas a elas, sendo suas guardiãs e protetoras. O termo dríade está etimologicamente ligado à palavra "drys" ou "dryos", carvalho. O prefixo háma, por sua vez, quer dizer com,  ao mesmo tempo. Diferentes das outras ninfas (Náiades, Oréades e Nereidas), que tinham vida eterna, esses seres nasciam junto com a árvore e partilhavam suas características e destino. Caso a árvore fosse cortada ou morresse, a dríade também morria. O poeta Calímaco de Cirene (310-240 a.C.), no Hino a Delos, descreve a palidez e a angústia da hamadríade Mélia, quando um raio fulminou seu carvalho.

Calímaco também nos conta que o temperamento e a disposição dessas ninfas variavam em conformidade com o de suas protegidas. Ficavam em festa quando as chuvas de primavera rejuvenesciam a floresta e se entristeciam profundamente quando suas árvores perdiam as folhas. Gostavam de dançar, dando-se as mãos em torno de um grande carvalho ou da árvore à quem eram consagradas. Embora fossem seres bondosos e alegres, eram implacáveis com quem ameaçasse ou violasse a árvore à qual sua própria vida estava ligada. Para impedir isso, faziam o que podiam, mas, assim como as árvores, não dispunham de poderes belicosos. Era preciso apelar para a ajuda de heróis ou divindades. Sendo assim, destruir levianamente uma árvore era considerado um ato gravíssimo e, de acordo com o mito de Erisíchton, sujeito à severa punição dos deuses (no caso, de Deméter). 

Segundo se conta, existem hamadríades para cada espécie de árvore existente. Mas O Banquete dos Sofistas, de Ateneu, lista oito hamadríades como filhas de Oxilo, filho de Óreas, e Hamadríade, que habitavam o monte Oita na Ftiótida:


  • Karya (nogueira, nome que abrange também a avelaneira e castanheira)
  • Balanos (bolota ou glande, fruto dos carvalhos)
  • Kraneia (corniso)
  • Morea (amoreira)
  • Aigeiros (choupo-negro)
  • Ptelea (olmo)
  • Ampelos (vinha, nome que abrange desde a videira silvestre Vitis silvestris, à briônia ou corriola-rosada Bryonia creticus, até a uva-de-cão Tamus communis)
  • Syke (figueira).

Os Nórdicos


Yggdrasil
Já os povos nórdicos configuravam todo o Universo na forma de uma árvore: a magnífica Yggdrasil, um grande freixo que interligava os nove mundos conhecidos, a saber: Midgard (mundo do meio, o nosso), Asgard (mundo dos deuses Aesir), Vanaheim (mundo dos deuses Vanir), Helheim (mundo dos mortos), Svartalfheim (mundo dos anões ou elfos escuros), Ljusalfheim (mundo dos elfos de luz), Jotunheim (mundo dos gigantes), Niflheim (mundo de gelo eterno) e Muspelheim (mundo de fogo). Os mundos superiores ficavam nos galhos, enquanto os inferiores, nas raízes sob a terra. Circundando Midgard está um oceano circular, sob o qual dorme a terrível Midgardsormr, a Serpente do Mundo, cujos movimentos causam as tempestades e terremotos. Essa serpente rói lentamente as raizes de Yggdrasil enquanto aguarda o Ragnarok, o apocalipse escandinavo, pois deseja destruí-la. 

Foi nessa Árvore, o Axis Mundi nórdico, que, certa vez, ao se autoflagelar em busca de conhecimento, o grande Odin acabou descobrindo a escrita rúnica:

“Suspenso na Árvore assolada pelo vento,
Durante nove dias e nove noites fiquei.
Trespassado por uma lança, uma oferenda para Odin,
Eu mesmo me sacrificando e oferecendo-me a mim.
Amarrado e suspenso estive naquela Árvore
Cujas raízes têm uma origem desconhecida aos homens
Ninguém me deu algo para beber,
Ninguém me deu pão para comer.
Ao espreitar as profundezas abaixo de mim,
Agarrei avidamente as runas,
E apossei-me delas, dando um grito feroz.
Depois caí da Árvore, os sentidos perdi.
(…)
Bem-estar eu alcancei com as runas, sabedoria também,
Amadureci e alegrei-me com meu crescimento.
Cada palavra conduziu-me a novas palavras,
Cada ato proporcionou-me novos atos e escolhas.”

- “Havamal”, estrofes 138 e 139

Os Celtas


O que mais me agrada, porém, é a postura dos celtas para com as árvores. Para esse povo ainda muito misterioso, todas as árvores eram sagradas e merecedoras de grande cuidado e respeito. Os bosques eram onde os seres divinos e sobrenaturais habitavam, sendo alguns até mesmo perigosos de se adentrar, pois a invasão poderia ofender o espírito que ali morasse. Conta-se que os druidas de todas as tribos se reuniam periodicamente nos Nêmetons (bosques sagrados, preferencialmente compostos de carvalhos), onde contatavam as divindades em uma grande assembleia em busca de sabedoria. O carvalho é uma árvore ligada à força e à sabedoria, e é o grande rei da floresta durante os meses quentes. Atrai raios, e é uma das poucas árvores que pode resistir a eles sem morrer. É a árvore associada a Odin, na cultura nórdica, e a Zeus na grega. Há rumores, inclusive, de que o nome “druida” possa muito bem derivar de “duir”, carvalho.


Duir - Carvalho - Green Man Oracle

As árvores, nessa cultura ancestral, além de fornecerem alimentos e madeira para construções e utensílios, eram verdadeiras deidades dotadas de espírito, conhecimento e sabedoria. Alguns mitos sugerem que o primeiro homem teria surgido de um amieiro e a primeira mulher, de uma sorveira. Eram consideradas os mais divinos dos seres, por sua intrínseca ligação com a natureza e os quatro elementos. Não é difícil imaginar o motivo. As árvores nutrem-se do Ar, no processo de respiração, e o vento brica em seus ramos; nutrem-se igualmente do Fogo, ao captarem a energia do Sol que brilha sobre suas copas; a Terra é o elemento que lhes serve de suporte e de onde as raízes retiram os nutrientes; e, finalmente, a Água é o meio pelo qual esses nutrientes fluem através de seus caules e ramos, como seiva. 

As árvores, mais precisamente os carvalhos, eram consideradas portais (a palavra door, em inglês, tem a mesma raiz de duir, carvalho) por meio dos quais estabelecia-se a ligação do humano ao divino (a entrada para o reino dos deuses).  Contudo, as árvores também tinham um lado obscuro. Se por um lado relacionavam-se com a vida e a geração, também relacionavam-se com a morte. Ora guiando os espíritos dos mortos ao submundo, ora protegendo cemitérios e lugares sagrados. O cipreste e o teixo são duas dessas árvores relacionadas à morte, sagradas e temidas, muito comum em cemitérios de igrejas até os dias de hoje. Além disso, a característica de algumas árvores de perderem suas folhas no inverno e florescerem novamente na primavera simbolizava o ciclo infinito de morte e renascimento. Os pinheiros, assim como todas as sempreverdes, eram árvores que representavam a imortalidade. 

Como sugerem alguns estudiosos, os celtas também imaginavam o mundo como uma grande árvore (o carvalho). Suas copas tocavam os céus e suas raízes eram tão profundas que chegavam ao mundo dos mortos. 

Todas as árvores (e plantas) eram sagradas para os celtas, porém, existiram algumas árvores especialmente importantes para eles, aparecendo recorrentemente em poemas, lendas, rituais e escrituras antigas de seus descendentes. São elas: o salgueiro, o sabugueiro, a hera, o azevinho, o carvalho, a macieira, o teixo, a aveleira, o pinheiro, o álamo, a sorveira, a amoreira silvestre, a giesta, a bétula, o amieiro e o pilriteiro.  Cada uma com uma propriedade mágica específica, simbologia e histórias relacionadas a elas. Tão importantes que o Ogham, alfabeto gaélico antigo que aparece em inscrições de pedra datadas do século IV até VI a.C, é baseado nessas árvores, e segue a inicial de seus nomes.

Ogham


Os praticantes da religião neopagã wicca, tal como os celtas, acreditam que as árvores tenham propriedades mágicas e sagradas. Aqui vai um poema conhecido nesse meio, exibindo a propriedade mágica de cada árvore:


Poem of Nine Woods

"Nine woods in the cauldron go, burn them fast and burn them slow.
Birch into the fire goes, to represent what the Lady knows.
Oak towers the forest with might, in the fire brings the God's insight.
Rowan is a tree of power, causing life and magic to flower.
Willows at the waterside stand, to aid the journey to the Summerland.
Hawthorn is burned to purify, and draws faery to your eye.
Hazel, the tree of wisdom and learning, adds its strength to the bright fire burning.
White are the flowers of the apple tree, that brings us the fruits of fertility.
Fir does mark the evergreen, to represent immortality unseen.
Elder is the Lady's tree, burn it not, or cursed you'll be".

 Anônimo
Poema das Nove Árvores

Nove são os ramos lançados ao caldeirão, queime-os depressa, queime-os com lentidão.
A Bétula ao fogo é levada, para representar o que sabe a Senhora Encantada.
O Carvalho se eleva poderoso na floresta, e a intuição do Deus nas chamas desperta. 
A Sorveira é uma árvore de poder, fazendo a vida e a magia florescer.
O Salgueiro cresce à beira da água, e para a Terra do Verão auxilia a jornada.
O Pilriteiro é queimado para purificar, e ao povo das fadas atrai o teu olhar.
A Aveleira, árvore da sabedoria e aprendizado, empresta sua força ao fogo vivo e cálido. 
Brancas são as flores da Macieira, que com os frutos da fertilidade nos presenteia.
O Pinheiro as sempre-verdes simboliza, revelando a imortalidade que jaz escondida.
O Sabugueiro é a árvore da Velha Deusa, não a queime jamais 
- Ou amaldiçoado sejas!



Os celtas não erguiam templos. O bosque era o templo. E ainda hoje, nas grandes catedrais europeias com suas abóbodas, arcos e pilares de pedra, pode-se observar, talvez, uma referência velada à floresta. 


Ou não?


Catedral de Winchester



Fonte de várias informações: O Vale do Mago
BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia, Ediouro, 2006.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Cultivar a Alegria

Olá, amigos!


Há muito que não piso nesse gramado tão verde e ouço o soprar alegre do vento! Hoje venho para jogar um pouquinho de sabedoria no ar, como a alimentar passarinhos, colhida por mim num feliz acaso enquanto folheava o velho livro formador da tradição ocidental, a Bíblia. Não sou muito chegado em lê-la, sou mesmo um estrangeiro naquelas páginas de seda, mas longe de mim fermentar preconceitos. Até os mais modernos precisam recorrer aos antigos, às vezes. Sou um espiritualista e considero que todo deus tem sua mensagem a ensinar. A mensagem neste caso é bonita e válida, como muito do que ali se encontra. O Eclesiástico e o Livro da Sabedoria têm sido uma descoberta muito saborosa para minha alma inquieta, nesses tempos de crise. E os versos ali contidos se mostraram como se proferidos por um velho pai ou mestre ancião, a aconselhar os aprendizes da vida. Fui tão profundamente tocado pelas doces palavras arcaicas que senti vontade de publicá-las aqui, e dividir a ternura nelas encerrada. O poema se encontra em Eclesiástico 30:31, e aí vai:

Cultivar a Alegria

 Não entregues tua alma à tristeza,
não atormentes a ti mesmo em teus pensamentos.

 A alegria do coração é a vida do homem,
e um inesgotável tesouro de santidade.
A alegria do homem torna mais longa a sua vida.

 Tem compaixão de tua alma, torna-te agradável a Deus, e sê firme;
concentra teu coração na santidade;
e afasta a tristeza para longe de ti;

pois a tristeza matou a muitos 
e não há nela utilidade alguma.

A inveja e a ira abreviam os dias,
e a inquietação acarreta a velhice antes do tempo.
Um coração bondoso banqueteia-se continuamente,
pois seus banquetes são preparados com solicitude.

À guisa de curiosidade, o Eclesiástico, o Livro dos Provérbios, o da Sabedoria  e possivelmente alguns outros se inserem em uma tradição poética muito antiga chamada de didático-sapiencial, justamente pelo caráter de aconselhamento que possuem. É uma tradição presente em todo Oriente Próximo e no mundo Indo-Europeu antigo. A esses livros se inserem, por exemplo, Os Trabalhos e os Dias, do poeta grego Hesíodo (700 a.C) e alguns poetas elegíacos como Teogris (VI a.C) e Focílides (V a.C). Na Suméria, em 2500 a.C, temos As Instruções de Suruppak, de mesmo caráter. 



Vivamos alegres! Com amor, dedicação e firmeza até nas tarefas mais banais de nosso dia. Que cada ato seja harmonioso com nosso Deus Interior e com o Universo. A vida pode ser dura, às vezes, mas o sol sempre brilha e os pássaros sempre cantam. Cantemos e brilhemos juntos no caminho, por que não? 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O Samurai e o Mestre Zen

Certo dia um Samurai, que era um guerreiro muito orgulhoso, veio ver um Mestre Zen. Embora fosse muito famoso, belo e habilidoso, ao olhar o Mestre, o Samurai sentiu-se repentinamente inferior. Ele então disse ao Mestre:

- Por que estou me sentindo assim? Apenas um momento atrás, tudo estava bem. Quando aqui entrei, subitamente me senti inferior e jamais me sentira assim antes.



O Mestre falou:

- Espere. Quando todos tiverem partido, responderei. 

Durante todo o dia, pessoas chegavam para ver o Mestre, e o Samurai estava ficando mais e mais cansado de esperar. Ao anoitecer, quando o quarto estava vazio, o Samurai perguntou novamente:

- Agora o senhor pode me responder por que me sinto inferior? 

O Mestre o levou para fora. Era uma noite de lua cheia e a lua estava justamente surgindo no horizonte. Ele disse: 

- Olhe para estas duas árvores: a árvore alta e a árvore pequena ao seu lado. Ambas estiveram juntas ao lado de minha janela durante anos e nunca houve problema algum. A árvore menor jamais disse à maior: Por que me sinto inferior diante de você? Esta árvore é pequena e aquela é grande – este é o fato, e nunca ouvi sussurro algum sobre isso. 

O Samurai então argumentou: 

- Isto se dá porque elas não podem se comparar. 

E o Mestre sorriu. 

- Então não precisa me perguntar. Você sabe a resposta. Quando você não compara, toda a inferioridade e superioridade desaparecem. Você é o que é e simplesmente existe. Um pequeno arbusto ou uma grande e alta árvore, não importa, você é você mesmo. Uma folhinha da relva é tão necessária quanto a maior das estrelas. O canto de um pássaro é tão necessário quanto qualquer Buda, pois o mundo será menos rico se este canto desaparecer. Simplesmente olhe à sua volta. Tudo é necessário e tudo se encaixa. É uma unidade orgânica: ninguém é mais alto ou mais baixo, ninguém é superior ou inferior. Cada um é incomparavelmente único. Você é necessário e basta. Na Natureza, tamanho não é diferença. Tudo é expressão igual de vida!

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Filtro dos Sonhos

Os sonhos desempenhavam um papel fundamental na vida dos índios Ojibwe. Para este povo que vivia na região dos Grandes Lagos americanos e que hoje também se espalha por outras regiões do Novo México, aprender a decifrar as mensagens reveladas nos sonhos era a tarefa mais importante que as pessoas tinham durante sua passagem pela Terra. Por causa disto, o dream catcher era uma ferramenta essencial.





O filtro de sonhos, como ficou conhecido em português, na verdade, não é um filtro, é uma teia. Os Ojibwe acreditam que, quando a noite cai, o ar se enche de sonhos, bons e ruins. Alguns destes sonhos, mesmo sendo pesadelos, podem conter uma mensagem importante do Grande Espírito para nós. Então, na verdade, estes sonhos são bons sonhos. Mas existem muitos outros sonhos e energias ruins flutuando à nossa volta e que não são nossos. Estes é que podem nos fazer mal. É justamente para separar estes sonhos e energias ruins que existem os dream catchers. 

A tradição manda que as teias coloridas sejam penduradas sobre o berço dos bebês e a caminha das crianças. Os sonhos bons, sabendo exatamente aonde ir, conseguem passar pelo buraco central da teia, ao passo que os sonhos ruins ficam perdidos e acabam presos nos fios. Quando os primeiros raios de sol surgem, os sonhos maus desaparecem. Os círculos são feitos com ramos flexíveis de salgueiros e revestidos com tiras de couro. 

Uma pena é colocada no centro, representando o ar ou a respiração, essencial para a vida. O bebê, observando a pena dançar ao vento, aprende uma lição sobre a importância do ar. Além disto, a pena de coruja, feminina, simboliza a sabedoria. A pena de águia, masculina, serve para dar coragem. 

Para captar os sonhos dos adultos, os dream catchers são trançados em fibra e não com ramos de salgueiros. Por isso são mais resistentes.

A lenda


Existem muitas histórias relacionadas com aranhas e Mulheres-Aranhas entre as várias nações de índios americanos. Em muitas destas tradições, por exemplo, a Mulher-Aranha é um personagem fundamental e sábio, ora mensageira do Sol, ora avó do próprio Sol e organizadora da vida na Terra. Existem várias lendas relacionadas com os dream catchers. Esta que escolhemos é apenas uma das versões.




Uma aranha fiava sua teia próximo à cama da avó (Nokomi). Todos os dias ela observava a aranha trabalhar. Alguns dias depois, o neto entrou e, ao ver a aranha na teia, pegou uma pedra para matá-la. Mas a avó não deixou. O garoto achou estranho, mas respeitou o seu desejo. A velha mulher voltou-se para observar mais uma vez o trabalho do animal e, então, a aranha falou: 

"Obrigada por salvar minha vida. Vou dar-lhe um presente por isso. Na próxima Lua Nova vou fiar uma teia na sua janela. Quero que você observe com atenção e aprenda como tecer os fios. Porque esta teia vai servir para capturar todos os maus sonhos e as energias ruins. O pequeno furo no centro vai deixar passar os bons sonhos e fazê-los chegarem até você".

Quando a Lua chegou, a avó viu a aranha tecer sua teia mágica e, agradecida, não cabia em si de felicidade pelo maravilhoso presente: "Aprenda", dizia a aranha. Finalmente, exausta, a avó dormiu. Quando os primeiros raios de sol surgiram no céu, ela acordou e viu a teia brilhando como jóia graças às gotas de orvalho capturadas nos fios. A brisa trouxe penas de pássaros que também ficaram presas na teia, dançando alegremente e, por último, um corvo pousou na teia e deixou uma longa pena pendurada. Por entre as malhas da teia, o Pai Sol sorria alegremente. E a avó, feliz, ensinou todos da tribo a fazerem os filtros de sonhos. E até hoje eles vêm afastando os pesadelos de muita gente.

Para os xamanistas, o centro da teia representa o Grande Mistério, o Criador, a Força que abrange o Universo inteiro e à qual tudo está conectado e interligado - a Grande Teia.

Fonte: Somos Todos Um e Natureza Divina


Clique aqui e aprenda a confeccionar um! Em inglês.

domingo, 19 de janeiro de 2014

O Poder do Sal Grosso




O sal grosso é considerado um potente purificador de ambientes. Povos distintos usam o sal para combater o mau-olhado, e deixar a casa a salvo de energias negativas.

O sal é um cristal e por isso emite ondas eletromagnéticas que podem ser medidas pelos radiestesistas. Ele tem o mesmo cumprimento de onda da cor violeta, capaz de neutralizar os campos eletromagnéticos negativos. 

Visto do microscópio o sal bruto revela que é um cristal, formado por pequenos quadrados ou cubos achatados. As energias densas costumam se concentrar nos cantos da casa. Por isso, colocar um copo de água com sal grosso ou sal de cozinha equilibra essas forças e deixa a casa mais leve. Para uma sala média onde não circula muita gente, um copo de água com sal em dois cantos é suficiente. 

Em dois ou três dias já se percebe a diferença. Quando formam-se bolhas é hora de renovar a salmoura.

A solução de água e sal também é capaz de puxar os íons positivos, isto é, as partículas de energia elétrica da atmosfera, e reequilibrar a energia dos ambientes. Principalmente em locais fechados, escuros ou mesmo antes de uma tempestade, esses íons têm efeito intensificador e podem provocar tensão e irritação.

A prática simples de purificação com água e sal deve ser feita à menor sensação de que o ambiente está carregado, depois de brigas ou à noite no quarto, para que o sono não seja perturbado.


Banho de sal grosso e o antigo escalda-pés (mergulhar os pés em salmoura bem quente) têm o poder de neutralizar a eletricidade do corpo. Para quem mora longe da praia é um ótimo jeito de relaxar e renovar as energias.

Os povos foram desenvolvendo técnicas de usar o sal, como as abaixo descritas:

Uma pitada de sal sobre os ombros afasta a inveja.

Para espantar o mau-olhado ou evitar visitas indesejáveis, caboclos e caipiras costumam colocar uma fileira de sal na soleira da porta ou um copo de salmoura do lado esquerdo da entrada .

A mistura de sal com água ou álcool absorve tudo de ruim que está no ar, ajuda a purificar e impede que a inveja, o mau-olhado e outros sentimentos inferiores entrem na casa.

Depois de uma festa, lavar todos os copos e pratos com sal grosso para neutralizar a energia dos convidados, purificando a louça para o uso diário.

Tomar banho de água salgada com bicarbonato de sódio descarrega as energias ruins e é relaxante. O único cuidado é não molhar a cabeça, pois é aí que mora o nosso espírito e ele não deve ser neutralizado.

Na tradição africana, quando alguém se muda, as primeiras coisas a entrar na casa são: um copo de água e outro com sal. Usam sal marinho seco, num pires branco atrás da porta para puxar a energia negativa de quem entra. Também tomam banho com água salgada com ervas para renovar a energia interna e a vontade de viver.


No Japão, o sal é considerado poderoso purificador. Os japoneses mais tradicionais jogam sal todos os dias na soleira das portas e sempre que uma visita mal-vinda vai embora. Símbolo de lealdade na luta de sumô. Os campeões jogam sal no ringue para que a luta transcorra com lealdade.

Use esse poderoso aliado!

É barato, fácil de encontrar, e pode lhe ajudar em momentos de dificuldade e de esgotamento energético!

Modo de tomar o banho de sal grosso:


Após seu banho convencional, deixe um punhado de sal grosso escorrer do pescoço para baixo, embaixo da água da ducha. Uma opção que agrada muitas pessoas, é colocar um punhado de sal dentro de uma meia, e repousar esta na nuca (atrás do pescoço) debaixo da ducha. Não é aconselhável banhos frequentes com o sal.

Dê preferência para os banhos na fase da Lua Cheia, utilize velas no banheiro e, se quiser ativar sua intuição, apague as luzes.

Benefícios de banhos e escalda-pé com sal grosso:


*Fisiológicos:

Ajuda a desintoxicar o corpo e afastar os vírus. Estimula a circulação natural para a melhoria da saúde. Ajuda a aliviar o pé de atleta, calos e calosidades. Relaxa a tensão, dores musculares e nas articulações. Ajuda a aliviar artrite e reumatismo. Ajuda a aliviar a dor lombar crônica.

*Benefícios estéticos:

Tira as impurezas da pele. Alivia irritações da pele como psoríase/eczema. Alivia comichão, ardor e picadas. Suaviza e amacia a pele· Incentiva a pele se renovar. Ajuda a curar as cicatrizes. Restaura o equilíbrio a umidade da pele.

*Ocupacional:

Alivia o cansaço, os pés doloridos e os músculos da perna.
Alivia a tensão nas mãos e punhos.
Ajuda a aliviar lesões no desporto Psico-física.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Guardião das Matas

Quem disse que nós não temos duendes aqui nas terras do verão? O Curupira é um habitante das florestas brasileiras, protetor de sua flora e fauna contra os caçadores e os que extraem as riquezas destes lugares, como os madeireiros. Representado comumente como um menino verde e ruivo que cavalga um porco do mato, o Curupira têm os pés ao avesso, com os calcanhares para frente, que o permite enganar os caçadores ao deixar pegadas falsas no chão, levando-os a se perderem no meio das florestas. O Curupira tem também o poder de realizar encantamentos e de se metamorfosear em outras criaturas, além de ser forte, rápido e muito astucioso.




O significado da palavra tem origem no tupi, sendo “curu” uma derivação de curumim, que significa menino, e “pira”, corpo. Curupira significaria, assim, aquele que tem corpo de menino. Os portugueses tiveram contato com a lenda logo no princípio de sua chegada ao território onde hoje é o Brasil. O próprio José de Anchieta relatou a lenda do Curupira, fazendo a primeira referência em 1560. Para os portugueses, era visto como um demônio ou um mau espírito; outros o viam como uma criatura benfazeja que punia somente aqueles que mereciam ou que o ofendiam. 

Um dos grandes estudiosos da cultura popular brasileira, Luís da Câmara Cascudo, descreve a ação do Curupira em sua Geografia dos Mitos Brasileiros da seguinte forma: “vigiando árvores, dirigindo as manadas de porcos do mato, veados e pacas, assobiando estridentemente, passa a figura esguia e torta do CURUPIRA, o mais vivo dos duendes da floresta tropical".

Os encantamentos do Curupira servem tanto para adultos quanto para crianças. Em relação a estas últimas, diz a lenda que o Curupira costuma levar crianças pequenas para morar com ele nas matas. Após encantá-las e ensinar a elas os segredos da floresta durante alguns anos, os jovens são devolvidos para suas famílias. As crianças levadas pelo Curupira nunca voltam a ser as mesmas depois dessa experiência e tornam-se protetoras exemplares da natureza.

Os contadores de histórias dizem que o Curupira, muito traquino, também pode encantar adultos, pregando peças naqueles que entram desavisadamente em seus domínios. Por meio de ilusões, ele deixa o visitante atordoado e perdido. O encantado tenta desesperadamente sair da mata, mas não consegue. Surpreende-se passando sempre pelos mesmos locais e percebe que está na verdade andando em círculos. Em algum lugar bem próximo, pode ter certeza, o Curupira estará observando e seguindo a pessoa, divertindo-se com o feito.

O Vigilante das Matas é famoso por castigar impiedosamente todo aquele que caça por prazer ou por dinheiro, que mata as fêmeas prenhes e os filhotes indefesos ou que derruba as árvores injustamente. Mas também há relatos de que o Curupira pode auxiliar os pescadores e caçadores que necessitam de suas respectivas atividades para matarem a fome. Nesse caso, ele mesmo pode indicar onde há caças disponíveis ou o rio onde há mais peixes. 

Artifícios utilizados contra as ações do Curupira 


Se uma pessoa estiver dentro de uma floresta e suspeitar de que está sob a influencia de um Curupira, só lhe resta uma alternativa: parar de andar, pegar um pedaço de cipó e fazer dele uma bolinha. Deve-se torcer o cipó muito bem, escondendo a ponta, de forma que seja muito difícil desenrolar o novelo. Depois disso, a pessoa deve jogar a pequena bola bem longe e gritar: 

"Quero ver você achar a ponta!"

Diz a lenda que, de tão curioso, o Curupira não resiste ao novelo. Senta e fica lá entretido tentando desenrolar a bola de cipó para achar a ponta. Vira a bola de um lado, de outro e acaba se esquecendo da pessoa a quem malinou. Dessa forma, desfaz-se o encanto e a pessoa consegue encontrar o caminho de volta para casa. 

Porém, se você quer mesmo neutralizar sua influência durante um passeio no bosque, há uma fórmula que os antigos garantem ser infalível. Quando se vir perdido, simplesmente chame o Curupira e ofereça-lhe um pouco de fumo. Então, dizem, ele ficará tão feliz com o presente que se tornará benfazejo e você poderá achar tranquilamente o caminho por onde veio. 

A seguir, uma animação muito bem feita sobre esse habitante tão importante de nossas matas:





quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

As Viagens de Bran Mac Febal

Um dia, quando passeava sozinho junto de sua fortaleza, Bran, rei da Irlanda, ouviu uma música atrás de si. Por mais que olhasse para trás, era ainda atrás dele que a música estava. Por fim, a suavidade da melodia era tanta que Bran acabou por cair num sono profundo. Quando acordou, viu junto de si um ramo de prata coberto de flores tão brancas que era impossível distinguir as flores do ramo. Bran levou o galho para o palácio real onde uma mulher vestida com estranhas roupas apareceu sem que ninguém soubesse dizer de onde. Ali recitou perante toda a corte uma longa canção de 50 estrofes. Ao cantar a doce música, afirmou ser ela a portadora do ramo de prata, feito de uma macieira da ilha de Emain. Nesta ilha bela e distante, na qual cintilavam os cavalos-marinhos de Manannán Mac Lir, a população entregava-se a jogos em meio a muita música e muita alegria. Ali não se conhecia a dor, o sofrimento, a maldade, a doença e nem mesmo a morte. Em contrapartida, tudo nela era belo e perene: a sua música era a mais melodiosa, os seus alimentos eram os mais apetitosos, a sua bebida, a mais saborosa, os seus tesouros eram os mais ricos. Por isso, Emain era única e incomparável. Uma joia no meio do mar.


Ao terminar a sua canção, a mulher tomou o ramo de prata das mãos de Bran e desapareceu sem que ninguém soubesse para onde tinha ido. Mas a canção fez efeito em Bran, levando-o a lançar-se ao mar acompanhado de três companhias de nove dos mais bravos guerreiros que dispunha, de modo a procurar a ilha encantada. Após dois dias e duas noites navegando no oceano, Bran viu um homem imponente se aproximar dentro de uma carruagem sobre as ondas. Este cantou-lhe também uma canção sobre as terras encantadas do Outro Mundo e identificou-se como Manannán, filho de Lir. Disse ainda a Bran que era seu destino regressar à Irlanda depois de muitos anos, onde geraria um filho a quem daria o nome de Mongán e que este seria um grande guerreiro. O Senhor dos Mares despediu-se, por fim, com outra canção.

Algum tempo depois de se afastar de Manannán, Bran avistou outra ilha. Aproximou-se dela rodeando-a com o seu barco, e verificou, com espanto, que todos os seus habitantes riam com agrado enquanto o observavam, sem que, contudo, lhe dirigissem a palavra. Bran enviou um dos seus homens à ilha, mas este, uma vez em terra, adquiriu igualmente o mesmo comportamento estranho dos seus habitantes: ficou a olhar fixamente para os seus companheiros, rindo, sem pronunciar palavra. Como tal, Bran lá o deixou, na ilha conhecida como Ilha da Alegria, e voltou a partir.


Passado um tempo, aproximou-se de outra ilha. Desta vez, era a Ilha das Mulheres. No porto, a sua líder deu-lhe as boas vindas e convidou-os a ir a terra. Mas, temendo aventurar-se na ilha desconhecida, Bran recusou o convite. A mulher recorreu então a um estratagema: atirou uma bola de fio em direção ao rosto de Bran, que a agarrou com as duas mãos. Ao fazer isso, a bola ficou colada e Bran se viu imobilizado. Puxando pela outra ponta, a mulher fez o barco atravessar o porto, obrigando assim Bran e os seus homens a adentrarem a ilha. Foram recebidos com camas quentes e boa comida, que nunca desaparecia dos pratos. Sem se aperceberem do passar do tempo, permaneceram na Ilha das Mulheres durante longas centenas de anos, até que Nechtan Mac Collbrain começou a sentir saudades de casa, sentimento que logo se espalhou entre os outros homens, que tentaram convencer Bran a voltar à Irlanda. A mulher avisou-os, porém, de que caso eles partissem da ilha iriam se arrepender, mas ainda assim decidiram partir. Ela disse-lhes então que deveriam levar com eles o companheiro deixado na Ilha da Alegria e, conhecendo o número de anos que haviam permanecido em seus domínios, advertiu-os para não tocarem o solo irlandês.

Bran e os seus homens abandonaram a Ilha das Mulheres e viajaram por mar até chegarem à costa da Irlanda. Alí encontraram uma multidão reunida em Srub Brain. Quando lhe perguntaram quem era, Bran respondeu: 

- Sou Bran, filho de Febal.

- Não sabemos quem és, embora a "Viagem de Bran" seja uma das nossas histórias mais antigas – respondeu um dos irlandeses, para grande espanto de Bran e dos seus homens.

Nesse momento, Nechtan decidiu sair do barco, esquecendo-se dos avisos que lhe haviam sido feitos na Ilha das Mulheres, e tocou o solo da Irlanda com os pés. Transformou-se rapidamente num monte de cinzas como se todos os seus anos lhe tivessem votado de uma só vez.

De dentro do seu barco, Bran contou aos irlandeses as suas aventuras, desde o início até àquele momento. Gravou-as em galhos utilizando o Ogham e deitou-os ao mar. Partiu depois no seu barco com os seus companheiros para nunca mais ser visto, e pelo mar vagueia ainda,  dizem, sem que ninguém saiba onde se encontra.

Fonte: Templo de Ávalon

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Esvaziar a Xícara


O mestre japonês Nan-in recebeu um professor de filosofia. 

Servindo-lhe o chá, Nan-in encheu a xícara do visitante, e continuou vertendo. 

O professor assistiu ao transbordamento até não conseguir mais conter-se: 

“Pare! A xícara está cheia, nada mais pode entrar.”

Nan-in disse: 

“Assim como esta xícara, você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso mostrar-lhe o zen sem que você esvazie a sua xícara primeiro?”.

Osho

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Maritaca

Alguns dias atrás, por alguma razão, uma maritaca caiu num buraco de terra e não conseguia mais voar. Não sei por quanto tempo ela ficou ali, até que eu a descobrisse. Estava exausta, a pobrezinha. O buraco era fundo e estreito: aquele corte que se faz na terra quando se ergue os alicerces de um muro. Sim, o homem mais uma vez interferindo. Tratava-se de uma construção. Ela provavelmente deve ter colidido com alguma armação e caído. Sem hesitar, meti-me dentro do buraco e a peguei.


Estava bem, apesar de alguns arranhões. Mas muito assustada para voar. Aqueles olhinhos alaranjados me olhavam assustados, como a me perguntar "Oh, humano, farás mal a mim?". Levei-a para casa de minha mãe e a instalamos num canto da casa, sobre um pano. Peguei algumas sementes de girassol para que ela comesse e ela comeu, para a nossa alegria. Devia estar caída no buraco há bastante tempo. Vi que ela estava com sede, pois o bico permanecia aberto e a linguinha estava sempre para fora. Não quis beber a água que eu coloquei num daqueles potinhos próprio para aves. Então, molhei meu dedo n'água e coloquei na linguinha dela, umedecendo-a. Ela parece que entendeu, pois não me mordeu. Deixou que eu fizesse o trabalho até ficar satisfeita. No outro dia, ao raiar do Sol, minha mãe abriu a janela. O bando de maritacas alçou voo da mangueira do quintal e nossa convidada bateu asas e foi embora. Ficamos muito felizes por ela!




Ver, observar, cuidar desses animais é a minha satisfação. Amo todos os pássaros! Costumo chamá-los de crianças do céu, os pequenos de Zéfiro (o vento ameno), filhos da Aurora. Não saberia viver em um mundo carente da poesia de seu canto. Fico pensando, aqui. É incrível como as coisas dão certo quando colocamos em nossas ações uma intenção de desprendimento e amor. Ela poderia ter se recusado a cooperar com a ajuda que nós, humanos desastrados, estávamos tentando oferecer. Poderia ter bicado (e aqueles que já cuidaram de psitacídeos sabem o quanto dói uma bicada bem dada rs e o quanto são arredios). Mas de algum modo ela sentiu, ou entendeu, que não queríamos lhe fazer mal e se acalmou. Sempre me surpreendi com a percepção dos animais, que não necessitam da razão para entender as coisas.  Voe alto, pequena, e que os bons ventos a acompanhem em sua jornada!